terça-feira, 22 de junho de 2010

"ACORDO" ORTOGRÁFICO - AFINAL O QUE MUDA? VIAJA ESTE "CARRO" NA VIA DO INFANTE?

Considerando que hoje a economia da Língua e da Cultura representam para além da geração em potência de um valor perto dos 20% do PIB segundo recentemente ouvi e de serem um motor por excelência da imagem e marca de um país no estrangeiro (como faz e muito bem a Espanha e como não faz e muito mal Portugal) analise-se este pequeno texto e diga-se o que nos aprouver:

O alfabeto português passará de 23 para 26 letras, com a inclusão em definitivo do k (capa ou cá), do w (dáblio, dâblio ou duplo vê), y (ípsilon ou i grego).

O uso de maiúsculas e minúsculas obedece a novas regras:

Os meses do ano e os pontos cardeais deverão ser escritos em minúsculas (janeiro, fevereiro e norte, sul, etc.).
Poder-se-á usar maiúsculas ou minúsculas em títulos de livros, no entanto a primeira palavra será sempre maiúscula (Insustentável Leveza do Ser ou Insustentável leveza do ser)

Também é permitida dupla grafia em expressões de tratamento (Exmo. Sr. ou exmo. sr.) em sítios públicos e edifícios (Praça da República ou praça da república) e em nomes de disciplinas ou campos do saber (História ou história, Português ou português)

A supressão de consoantes mudas tal como o nome indica, vai levar ao desaparecimento de consoantes, em que o critério para tal é a sua pronúncia.

cc - ex.: transacionado, lecionar. Mantém-se em friccionar, perfeccionismo, por se articular a consoante.
cç – ação, ereção, reação. Mantém-se em fricção, sucção.
ct – ato, atual, teto, projeto. Mantém-se em facto, bactéria, octogonal.
pc – percecionar, anticoncecional. Mantém-se em núpcias, opcional.
pç – adoção, conceção. Mantém-se em corrupção, opção.
pt - Egito, batismo. Mantém-se em inapto, eucalipto.

Passam a ser suprimidos alguns acentos gráfico em palavras graves: crêem, vêem, lêem passam a creem, veem e leem; pára, pêra, pêlo, pólo passam a para, pera, pelo e polo. As palavras acentuadas no ditongo oi e ei passam a ser escritas sem acento: estoico, paleozoico, asteroide e boleia, plateia, ideia. Existe também a supressão completa do trema(¨): aguentar (e não agüentar), frequente (e não freqüente), linguiça (e não lingüiça). Supressão do acento circunflexo em abençoo, voo, enjoo.

O uso do hífen vai ser suprimido em:

- Palavras compostas em que o prefixo termina em vogal e o sufixo começa em r ou s, dobrando essa consoante: cosseno, ultrassons, ultrarrápido.

O prefixo termina em vogal diferente da incial do sufixo: extraescolar, autoestrada, intraósseo.
formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de.

O hífen emprega-se em:

- Palavras compostas onde a última vogal do prefixo coincide com a inicial do sufixo, excepto o prefixo co- que se algutina ao sufixo iniciado por o: contra-almirante, micro-organismo, coobrigação.
palavras que designam espécies da Biologia ou Zoologia: águia-real, couve-flor, cobra-capelo.

Pode existir dupla grafia em algumas palavras?

Sim. Isso está previsto no novo acordo por existirem diferenças na pronúncia de país para país assim temos:

característica - caraterística
intersecção - interseção
infeccioso - infecioso
facto - fato
olfacto - olfato
conceção - concepção
súbdito - súdito
amnistia - anistia
amígdala - amídala
súbtil - sútil
académico - acadêmico
ingénuo - ingênuo
sénior - sênior
cómico - cômico
vómito - vômito
fémur - fêmur
abdómen - abdômen
bónus - bônus
bebé - bebê
puré - purê
judo - judô
metro - metrô
andámos - andamos

Argumentos a favor:

- Aproximação da oralidade à escrita
- Actualmente a Língua Portuguesa é a única que tem duas grafias oficiais
- Simplicidade de ensino e aprendizagem
- Unificação de todos os países de língua oficial portuguesa
- Fortalecimento da cooperação educacional dos países da CPLP
- Evolução da língua portuguesa
- Pequena quantidade de vocábulos alterados (1,6% em Portugal e 0,45% no Brasil)
- O português é o 5º idioma mais falado no mundo e o 3º no mundo Ocidental. A unificação das grafias permite aumentar, ou pelo menos manter a força da Língua Portuguesa no panorama mundial

Argumentos contra:

- Evolução não natural da língua
- Tentar resolver um “não-problema”, uma vez que as variantes escritas da língua são perfeitamente compreensíveis por todos os leitores de todos os países da CPLP
- Desrespeito pela etimologia das palavras
- A não correspondência da escrita à oralidade. Por exemplo, existem consoantes cuja função é abrir vogais, mas que o novo acordo considera mudas nomeadamente em tecto, passando a escrever-se teto, dever-se-ia ler como teto (de seio)?
- Processo dispendioso (revisão e nova publicação de todas as obras escritas, os materiais didáticos e dicionários tornar-se-ão obsoletos, reaprendizagem por parte de um grande número de pessoas, inclusivé crianças que estão agora a dar os primeiros passos na escrita)
- O facto de não haver acordo, facilita o dinamismo da língua, permitindo cada país divergir e evoluir naturalmente, pelas próprias pressões evolutivas dos diferentes contextos geo-sócio-culturais como no caso do Inglês ou do Castelhano
- Afecto com a grafia actual
- Falta de consulta de linguistas e estudo do impacto das alterações

E que tal um acordo com o Espanhol?

5 comentários:

  1. O Espanhol enquanto língua Maria...no sentido de quebrar as ligeiras barreiras de compreensão entre estes dois grandes idiomas...até vou mais longe...a longo prazo poder-se-ia pensar numa fusão...já que...

    As 2 línguas partem da mesmíssima raíz e só se separaram mantendo-se o espanhol mais aberto e mais vivaço e o português mais comedido e fechado...para agradar aos interesses dos senhores que mandavam na época em que tal se deu

    Deixo a reflexão...

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  2. O texto refere que o Português é a terceira língua mais falada no mundo ocidental, sub- entenda-se Europa, Américas & África, presumo portanto que o Inglês será a primeira, secundada pelo espanhol que aos poucos lhe vai ganhando terreno e assim se distanciando do português.

    O espanhol vive e cresce suportado por um conceito de hispanidade, pelo qual a Espanha sempre se bateu, levando a sério a etimologia da língua, o seu cerne, a sua essência. Este facto percebe-se pela pronta criação de neologismos em espanhol, que provêem do Inglês, língua mais falada não só no mundo ocidental mas no mundo inteiro, e que por ser a língua usada oficialmente no mundo dos negócios é a língua que mais palavras novas ( neologismos ) cria, pelo que enquanto nós portugueses, importamos quase directamente essas palavras incorporando-as no português ( Ex: Computer = Computador ), os espanhóis ( os franceses também ), procuram a sua origem latina, e criam uma nova palavra de origem "hispánica". ( Ex: Ordenador = Ordinateur ). Este facto mostra-nos portanto que nós alem de não sabermos bem o que é o conceito de PORTUGALIDADE se é que ele existe, nunca nos preocupámos muito com a Etimologia da nossa língua, adaptando-a de forma simplista, mas rápida, incorrecta do ponto de vista etimológico, mas útil.

    A meu ver foi sempre esta capacidade de nos adaptarmos ás situações mais adversas, novas e inesperadas, que nos projectou no mundo. Hoje já não somos um Império, somos um pequeno rectângulo. Quem projecta a nossa língua no mundo é o BRASIL, não nós.
    Tenhamos a humildade de perceber isso.

    A língua espanhola, tem uma personalidade própria assente num vigor económico e cultural que faz da Espanha uma potencia mundial.

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  3. Interessante. Mas com imprecisões importantes.

    A língua Espanhola não está aos poucos a distanciar-se do Português, está a fazê-lo a grande passada.

    E muito porquê? Porque a 2ª língua mais falada no mundo é e será, porque o mundo gira assim, a 1ª língua estrangeira que for escolhida nos Estados Unidos, país que ainda é dono desta brincadeira.

    Segundo, um país com as expectativas e os sonhos interiores de grandeza que os portugueses ainda, e digo, legitimamente (porque não) têm, não se coaduna com o oposto "somos pequeninos coitadinhos e tristes".

    É preciso por isso, na minha luta, procurar uma possibilidade de isto acontecer e de corresponder Às expectativas.

    O conceito de Portugalidade foi expandido a partir de 1415 e voltou a 1414 estando a andar para trás.

    Diria até que não serão precisos, desejavelmente 300 anos para voltarmos a 1142....

    A questão é "Como" ....sem prejuízo de se tentar aferir o "Quando" e o "Porquê" que já sabemos e parece óbvio..

    Este Mundo e a evolução dos últimos 40 anos não está feito para o triunfo da "Portugalidade"...como dizia Antero de Quental...somos todos Hispanos....apesar de não sermos Espanhóis...e somos acima de tudo latinos

    Que tal aproveitar essas pontes...

    A capacidade para nos adaptarmos está na mesma mão que nos tira qualquer hipótese de influenciar com a nossa "não dimensão crítica" qualquer decisão ou evolução que o Mundo venha a ter.

    Tornar Portugal numa Letónia concorrendo pelos mesmos factores de competitividade, não está nos horizontes da minha luta...

    E se mais nada soubesse....saberia sempre...que não é por aí

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  4. E vou mais longe:

    - A partir de 2015, depois dos 6 anos de moratória previstos no instrumento que aprova o Acordo Ortográfico será também ensinado nas escolas o Português do Brasil.

    A título pessoal nao me choca, tem uma fonética muito interessante e desconfio que se exporte melhor por ser, digo eu, mais simples.

    Por outro lado o pior que poderia acontecer À língua Portuguesa é que o Brasileiro se afirmasse como língua distinta. Registo pelo menos esse ponto positivo de alguém se ter apercebido disso.

    No entanto, faria de longe muito mais sentido este acordo, que foi aprovado , veja-se em 1990, se houvesse uma estratégia concertada de expansão.

    O Espanhol joga sozinho, em monopólio, quando se fala do ensino das línguas "romance" no Mundo. O Italiano pela sua reduzida dimensão não lhe faz frente e o romeno também o não faz por motivos óbvios.

    Mas também lhes digo, vejam. Na Holanda, o ensino do Holandês leva 7 horas por semana para as 3 de Portugal (nos próximos 5 anos mais complexo devido À dupla grafia permitida).

    Vamos a ser claros, para o bem e para o mal, Portugal não teve a inteligência de dividir o Brazil assim como a Espanha o soube fazer com as suas ex-colónias....e agora quem manda no Espanhol é a Espanha e quem manda no Português é o Brasil.

    Manias de quem se agiganta sem ter a dimensão crítica para o fazer e a inteligência de prever o futuro.

    Não queira o Brasil uma unificação sem um plano de expansão...não me importa que com um sotaque mais doce...virá no próximo artigo a consagração do "bonitchinho?"

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